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Apresentação1
Este texto tem como objetivo entender o papel do ensino superior face a inclusão dos setores populares na universidade. Para tal buscamos conhecer melhor os alunos da universidade, campo da investigação em curso, através de observação participante e entrevistas temáticas. Chamou-nos atenção, como questão a ser investigada, a presença e a interferência dos alunos das camadas populares (bolsistas2), em sua maioria negros.
A partir das discussões geradas, tomamos como objetivo contextualizar as investigações que estávamos travando no grupo de pesquisa frente ao enorme debate sobre a exclusão de negros, impulsionado pela Conferência Mundial Contra o Racismo3. Começamos, então, fazendo um levantamento das notícias, matérias, entrevistas e artigos de três grandes jornais brasileiros: "O Globo", "Jornal do Brasil"e "Folha de São Paulo", no período entre 03 de julho a 21 de outubro de 2001, que publicaram farta cobertura sobre a Conferência. Selecionamos o que era pertinente à pesquisa: a discussão sobre a adoção do sistema de cotas4, a exclusão de negros do ensino superior, a atuação dos pré-vestibulares comunitários e algumas outras questões que julgamos importantes, como alguns dados sociais sobre a situação dos afro-descendentes no Brasil, tentando dialogar com o que observamos e vivenciamos no contexto estudado. Ao longo da construção do texto, foram muitas as reflexões suscitadas a partir do tema, tanto pelo vigoroso debate dos jornais, quanto pelas inúmeras experiências vividas por nós como estudantes, nos mais diferentes espaços de nossa universidade (políticos, acadêmicos, culturais etc), como ainda pelo conhecimento construído nos encontros da equipe de pesquisa.
Sendo assim este texto está organizado em quatro partes: 1) Introdução; 2) A pesquisa; 3) Dados sobre a desigualdade social e racial no Brasil e a Conferência de Durban; 4) Diversidade na Universidade.
Introdução
Antes de começar propriamente as análises, torna-se fundamental para nós esclarecer de que lugar estamos escrevendo. O trabalho antropológico não é senão um certo olhar, um certo enfoque que pretende levar em consideração as múltiplas dimensões do campo estudado (Laplantine, 1988). Sendo assim, queremos contextualizar o nosso olhar, indicando o nosso ponto de vista a partir do lugar em que estamos situados nesta pesquisa. Até por que, temos clareza que as análises não estão isoladas das condições em que nos encontramos.
Se o tema da pesquisa foi fecundo em reflexões e aprendizados, a nossa opção metodológica não esteve atrás. As discussões no grupo de pesquisa foram fundamentais para que pudéssemos escolher a melhor maneira de olhar, ouvir, estudar e interpretar o campo.
Somos graduandos de Pedagogia e Ciências Sociais da referida universidade, bolsistas de iniciação científica do CNPq e integrantes do movimento estudantil, atualmente, participando do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Estamos inseridos na universidade estudada, como estudantes e como pesquisadores. Somos observadores diretos e participantes do próprio campo que estudamos. "A etnografia propriamente dita só começa a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador deve ele mesmo efetuar no campo sua própria pesquisa, e que esse trabalho de observação direta é parte integrante da pesquisa" (Laplantine, 1988)
Ainda que reconheçamos a especificidade de nosso olhar, pelo privilegiado lugar de onde falamos e pela peculiar inserção que temos na universidade, buscamos temperar nossa desejável participação com um máximo de estranhamento em nossa observação. O exercício de compreender "de dentro" é uma maneira de conhecimento em profundidade dos outros e daquilo que tomávamos por natural em nós mesmos. Começamos a nos surpreender com aquilo que diz respeito à realidade vivida no dia-a-dia da universidade que estudamos. Passamos, então, a estranhar o que nos é familiar. Este processo de estranhamento possibilita uma modificação do olhar que se tinha sobre si mesmo e sobre o campo no qual estamos inseridos. (Velho, 1981)
Estranhar o familiar, no papel de estudantes de graduação e como pesquisadores, bolsistas de iniciação científica, torna-nos ao mesmo tempo observadores participantes e participantes que observam (Cardoso, 1986). O movimento de estar à todo instante com o olhar de pesquisador, na nossa vida universitária, (seja em sala de aula, seja em encontros e eventos, seja no dia-a-dia do movimento estudantil) possibilita-nos reconhecer com intensidade as tensões considerando as diferenças culturais, sociais e econômicas dos alunos da universidade estudada. Passamos a olhar e ouvir tudo que presenciamos de uma maneira diferente. O nosso trabalho de campo torna-se diário e constante, e não é mais possível vivenciar situações sem colocá-las no alvo da pesquisa etnográfica.
O envolvimento com o nosso objeto intensificou o nosso olhar no sentido de prestar maior atenção às nossas reações e às reações dos outros. Tentamos estar atentos a nossa subjetividade de pesquisadores por compreender que ela também faz parte da pesquisa. Não deixamos de refletir sobre as nossas motivações e dificuldades enquanto pesquisadores, pois, como diz Laplantine (1988), "a antropologia é também a ciência dos observadores capazes de observarem a si próprios, e visando a que uma situação de interação (sempre particular) se torne o mais consciente possível".
Observando-nos, identificamos que estamos vivendo no processo de investigação um dilema, estamos imersos num conflito: somos, ao mesmo tempo, pesquisadores e militantes. A nossa inserção no movimento estudantil da universidade coloca-nos na posição de estudantes militantes, que por sua vez, tem uma relação com a universidade diferente da relação de pesquisador. Enquanto militantes não basta para nós investigar, é necessário atuar, construir politicamente. E por conta disso, como pesquisadores, encontramos um desafio constante: como investigar sem atuar? Será que é possível separar os papéis? No contexto mais direto da pesquisa tentamos não atuar como militantes, buscando um distanciamento do objeto enquanto realizávamos as entrevistas e observações do campo.
No entanto, não podemos deixar de dizer que, principalmente, no momento da escrita desse texto, a tensão e o desafio estiveram presentes: como escrever um texto científico sem que o mesmo esteja envolvido com o nosso discurso político? Será que é possível despir-nos de ser militantes para ser pesquisadores? Identificamos aqui uma fronteira simbólica entre a linguagem e a atuação militante e a linguagem e atuação científica. O que fizemos foi deixar claro para o(a) leitor(a) quem somos e como percebemos essa fronteira simbólica e esse dialético conflito de ser militante e pesquisador.
A identificação dos propósitos políticos entre pesquisador e pesquisado fizeram-nos discutir a participação e o engajamento que tínhamos como investigadores. Atentos à pesquisa como uma ação científica e política tornou-se desafio para nós escrever um texto que trouxesse nossas experiências combinadas com algumas concepções teóricas.
Se por um lado o lugar de onde falamos abre boas perspectivas para nossa investigação, por outro inspira cuidados redobrados em manter o relativo distanciamento de nosso objeto.
"A partir do momento em que nos sentimos preparados para a investigação empírica, o objeto, sobre o qual dirigimos o nosso olhar, já foi previamente alterado pelo próprio modo de visualizá-lo." (Oliveira, 1996) Percebemos que com o tempo vamos alterando nosso olhar, da mesma maneira, o nosso ouvir tanto como militantes quanto como pesquisadores. É grande a nossa vivência do campo, acumulada na qualidade de estudantes e militantes. Contudo, a partir da pesquisa o espaço social da universidade passou a ter outra forma, ou melhor passamos a não só vê-lo, mas a experimentá-lo de maneira diferente.
A pesquisa
A etnografia referente a pesquisa intitulada: "Os universitários: modos de vida e práticas leitoras" foi realizada em uma universidade particular, religiosa, na zona sul do Rio de Janeiro. A sua imagem esteve sempre associada a um alunado proveniente de setores das camadas medias e da elite econômica e social do país. Durante todo o período da investigação, o universo da pesquisa tornou-se, para nós, um grande laboratório antropológico. Nossos olhares estiveram atentos aos conflitos entre os estudantes da chamada elite e das camadas populares (Dauster, 2001), que de diferentes maneiras disputam o acesso ao capital acadêmico representado pelo meio universitário. Realizamos o trabalho de campo para captar o dia-a-dia dos estudantes e sua relações de sociabilidade, além de entrevistas semi-estruturadas, com base na história de vida.
Na construção do presente texto, optamos por fazer um recorte, trabalhando somente com a categoria dos chamados bolsistas de ação social, pessoas oriundas de "pré-comunitários populares", em sua maioria negros. A escolha do recorte está relacionada a vários fatores; por constituírem um grupo específico, bem definido, apesar de não ser homogêneo, por estarem modificando as relações sociais na universidade, por estarem trazendo à tona tanto questões relacionadas a diversidade cultural, quanto a problemática da desigualdade social e racial no ensino superior e no país.
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1 Fazemos parte de um grupo de pesquisa denominado: "Os universitários: modos de vida e práticas leitoras", coordenado pela professora doutora do Departamento de Educação Tania Dauster. Esta pesquisa tem como objetivo mapear as relações entre os estudantes universitários e a cultura do escrito e da leitura. A etnografia que vem sendo realizada coloca em foco a sociabilidade entre os estudantes, destacando as tensões e as mediações dos conflitos, suscitados pela diversidade social, econômica e cultural dos alunos. (Dauster, 2001).
2 Bolsistas de Ação Social e Reembolsável com isenção integral das mensalidades.
3 Conferência Mundial contra o Racismo aconteceu em Durban, na África do Sul, entre os dias 31 de agosto e 05 de setembro de 2001, organizada pela ONU.
4 Sistema de Cotas: proposta feita pelo Movimento Negro, com base no sistema implantado nos E.U.A na década de 60, que reserva cotas percentuais para negros nas universidades e escolas públicas.
continua
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